Capítulo 1 (Trabalho em Progresso)
Em uma noite quente de Janeiro onde os ventos fortes e acalorados eram acompanhados por finas cortinas de areia cortante, um Bronco 82, descolorido e preparado para o fim do mundo, corre em alta velocidade pelas sobras do que um dia fora uma rodovia. Asfalto rachado e em certos pontos cobertos por pesadas camadas de terra seca serviam como guia para o Orc que dirigia em direção à cidade de Fonte Verde onde poderia descansar depois de uma longa viagem e mais um trabalho concluído.
Ao som do motor barulhento e aspirando a fumaça de mais um cigarro que fumava logo após o último, o Orc tenta ignorar os gritos abafados de desespero do Fauno caído e amarrado no porta-malas. A escuridão da noite era iluminada em parte pelos faróis e pelas auroras multicoloridas que cortavam o céu parcialmente nublado como se fossem rachaduras para outras dimensões. Algo que em alguns casos era verdade.
Estranhamente, a viagem seguia tranquila há um bom tempo. Algo que era de embrulhar o estômago para qualquer um que se aventurava fora dos limites de áreas urbanizadas. Não que áreas urbanizadas fossem garantia de segurança. Ainda assim, o Orc não parecia preocupado. Talvez o cansaço não permitisse que aquele momento de paz fosse arrancado de si por motivos fúteis. O momento de relaxamento infelizmente é interrompido quando a voz do Fauno se torna clara mais uma vez, dentro dos limites possíveis para a barulheira do ambiente.
“Qual é! Qual é! Eu te falei que eu tenho um dinheiro sobrando! Me ajuda nessa e eu te dou um terço!”, gritou o Fauno entre arfados depois de se livrar do pano que tapava sua boca.
O Orc se surpreendeu e se irritou simultaneamente ao perceber a voz do Fauno. Olhou rapidamente pelo retrovisor e por cima do banco traseiro que estava abaixado para frente, permitindo que a presa estivesse dentro do alcance de sua visão. Deu uma longa tragada no cigarro antes de baforar em direção ao teto. Respirou fundo e retrucou.
“A não ser que um terço do que você tenha seja mais do que o dobro do que me ofereceram para arrastar sua bunda de volta, Estevan, essa conversa não vai chegar a lugar algum.”, disse o Orc.
“Porra, Aluguel! Você sabe que não posso voltar! Eles vão me torturar! E quando conseguirem o que querem, porque eles vão! Você sabe que eu sou frouxo! Eles vão me matar, me esquartejar e me servir no próximo banquete comemorativo da porra do bordel!”, o Fauno seguia gritando desesperado.
“É verdade. Sabe que isso me lembra… Faz tempo que não como carne de bode. Hahaha.”, Aluguel, o Orc, responde em ar de brincadeira.
“Muito engraçado! Um gênio da comédia! Agora me solta, para o carro e vamos conversar como pessoas civilizadas!”
“Engraçado você mencionar isso. Quando eu dei a ideia, você acreditou em uma alternativa onde achou que conseguiria me derrubar em uma troca de tiros. E sabe o que eu lembro? De quase perder meu dinheiro quando acertei você de raspão no pescoço. Afinal, eles te querem vivo. Então, acho que já passamos do ponto de civilidade.”
“Certo, certo, mas escuta. Eu vou te falar algo que não contei a mais ninguém, e isso só porque eu confio em você.”
“Você não confia em ninguém.”
“Situações desesperadas, Aluguel.”
O carro, que seguia em velocidade alta e constante, entra em uma curva onde logo em seguida uma placa improvisada à beira da estrada é iluminada pelos faróis. Escrito com tinta e pedaços de outras placas, estava destacado “Início da Fronteira de Fonte Verde. Próxima parada: Posto Avançado Sul.”.
“É melhor se apressar, Estevan. Estaremos no PA Sul em cinco minutos.”
“Se não vai parar, pode pelo menos diminuir?! Eu tô falando sério! O que eu tenho a dizer é muito importante!”
“Menos dez segundos…”
“Eu sei onde tá o Tique-Taque!”
Em uma freada brusca de Aluguel, Estevan rola por cima do banco traseiro e esbarra com força nas costas dos bancos dianteiros, lançando um gemido de dor. O carro não para, no entanto, e logo começa a andar novamente em uma velocidade menor.
“Você é estúpido, Estevan, mas não é burro. Você sabe o que eu faço com quem brinca sobre esse assunto, então vou presumir que o que você tem a dizer é realmente significante. De outra forma, eu vou me voluntariar para a parte da tortura quando a Doceira decidir arrancar suas extremidades uma por uma.”
“Obrigado.”, Estevan retruca de certa forma aliviado com a redução da velocidade, “Enfim, O Tique-Taque… Não tá com uma semana que eu ouvi falar que ele tinha sido visto pros lados do sudeste.”
“Em Roleta Sete. Eu já ouvi isso. Não é exatamente o lugar mais fácil de começar uma troca de tiros. Não tenho como ir atrás dele.”
“Não, não é. Não sem o apoio de uma das gangues locais, que é algo que o Tique-Taque com certeza tem. Mas e se eu te disser que isso é algo que eu também posso conseguir pra você? Aliás, pra nós dois.”
“Eu não acreditaria. Se fosse tão fácil, você estaria por lá, são e salvo. Longe das garras da Doceira.”
“Acontece que pra isso, eu preciso fazer algo pra eles, que é algo no qual eu estava no meio do processo até você chegar atirando.”
Um relâmpago ilumina os céus. Logo em seguida, um trovão ecoa pelos vales desertos dos arredores, estremecendo tudo que era mal apresilhado. O carro seguia adiante, mas Aluguel suspira profundamente com desgosto.
“Eu estava procurando por pessoas capacitadas.”, Estevan continua, “Gente capaz de trocar tiros, mais do que eu, claramente. Eu tenho um trabalho a fazer para os Tostões Furados, em troca eles iam me colocar embaixo das asas deles. Se você me ajudar a concluir essa parada, nós dois estaremos mais perto de nossos objetivos. Você vai ter mais alcance para rastrear o Tique-Taque e eu vou ficar em paz, longe da Doceira. E da mulher dela.”
“É por isso que ela tá me fazendo te arrastar pra lá? Porque você comeu a mulher dela? De novo?”
“Não. Não é por isso. Talvez. Na verdade, é sim. Hehehe.”
“Roubou dela também, não foi?”
“Como eu disse, posso te pagar e resolvemos tudo isso. E aí você pode me ajudar nessa nova empreitada.”
“Cara…”, Aluguel suspira enquanto guia o carro para o acostamento e finalmente decide desliga-lo, “O que é que você tem que fazer?”
Estevan suspira aliviado, tentando se colocar em uma posição mais confortável, sem muito êxito, mas, pelo menos, uma em que pudesse falar com mais facilidade sem colocar todo seu peso por cima de seus pulmões.
“Os Tostões Furados estão entrando no negócio de-”
“Eu não quero saber das empreitadas deles, Estevan. Só me diga o que você tem que fazer.”
“Certo, certo. Bom, eles me deram a localização de uma fábrica abandonada não muito longe de onde eu estava, lá na Cruzeta Seca. Maquinários pesados, que precisavam de geradores grandes, daqueles repletos de gasolina cristalizada.”
“Passo.”
“Passa? Como assim, passa?! Eu nem terminei de falar.”
“Não vou colocar gasolina cristalizada dentro do meu carro. Não vou nem chegar perto. Você não pode nem espirrar alto perto dessas merdas que elas explodem e levam um quarteirão inteiro com elas. Vou levar você para a Doceira que eu ganho muito mais.”
Aluguel já se preparava para dar a partida no carro mais uma vez, mas Estevan interrompe em meio a desespero misturado com frustração.
“É ÓBVIO QUE EU NÃO VOU CARREGAR ISSO NUMA CESTA DE PIQUE-NIQUE, SEU PORCO VERDE IMBECIL!”
“Uou… Racismo? Sério?”, Aluguel olha de relance para trás, com um sorriso largo no canto da boca, suas presas inferiores saltando ainda mais do que o normal.
“Eu… Eu tenho a droga dos recipientes pra transportar a gasolina. Apesar de você ter disparado por dentro de toda a merda da quitinete onde eu tava, você não conseguiu acertar nenhum deles.”
“Ah… Tá falando daquelas caixas metálicas com detalhes em azul?”
“Essas mesmas.”
“Imaginei que fossem algo importante. Tipo cerveja.”
“Enfim…”, Estevan negativa com a cabeça enquanto fecha os olhos rapidamente em desapontamento, “Ninguém que eu conseguisse encontrar na Cruzeta Seca seria melhor guarda-costas do que você. Isso vai diminuir bastante os custos do trabalho, e o nosso lucro vai ser bem maior.”
“Hum. E porque não me falou logo isso enquanto a gente ainda tava lá?”
“SEU FILHO DA PU-”
“HAHAHAHAHA! Tô tirando onda, caralho. Relaxa aí.”, Aluguel estrala os ossos do pescoço enquanto toma uma decisão em silêncio, “Primeiro, você vai me dar duas mil granas pra te soltar.”
“Mil e quinhentas.”
“Duas mil. O dobro ou nada do que a Doceira ia me pagar.”
“É só o que eu tenho aqui comigo agora.”
“Eu pego uma parte agora, e depois você me dá o resto. Segundo, esse dinheiro não conta como pagamento desse trabalho. Você vai me dar esse valor por fora.”
“Sem problema, nada como quinhentas granas para alegrar o dia de algu-”
“Parou. O valor que você vai me pagar eu vou perguntar diretamente ao pessoal dos Tostões Furados, mas vou te dar um desconto e ficar só com metade do que você recebeu para pagar por um grupo de mercenários meia-boca. Vamos chutar… Sete mercenários?”
“Sete?! Eu estava indo em uma missão, não dar uma festa! Três mercenários!”
“Seis.”
“Suruba?! Nem fodendo! Quatro!”
“Ok. Quatro.”
“Ok, quatro mercenários meia-boca. Metade do que eles ganhariam, certo?”, Estevan entende que sim ao notar Aluguel afirmando com a cabeça, “Ótimo, meu velho amigo, muito bom! Haha! Agora… Será que dá pra me soltar?”
Apesar da chuva que ameaçava cair, Aluguel se dá ao trabalho de descer do carro e levar consigo uma faca. O Orc caminha em direção ao porta-malas, abre e ajuda Estevan a se arrastar até a saída, onde fica mais fácil para cortar as fitas adesivas que eram usadas para prender seus braços e pernas. Estevan aproveita para saltar para fora do bagageiro, esticando os braços, as pernas e as costas.
“Se dermos a volta agora, talvez cheguemos lá antes do amanhecer.”, Estevan comenta enquanto continua seus exercícios.
“Grana. Vou precisar para encher o tanque.”
“Tá de sacanagem, né? O único lugar que você pode encher o tanque por aqui é em Fonte Verde. Se entrarmos em Fonte Verde, eu tô fodido.”
“Dá pra encher no PA Sul.”, Aluguel comenta enquanto fecha o porta-malas e vai caminhando de volta ao banco do motorista.
“Ah sim, porque o Godofresno morreu e não é mais o dono da bomba local.”
“Não. Godofresno ainda está muito bem vivo, e para um Goblin naquela idade, a saúde dele não poderia estar melhor.”
“E você consegue convencer aquele muquirana a liberar a bomba? Uma porra. Aquele é o sujeito mais mão de vaca que eu conheci em toda minha vida.”
“Eu não, mas você sim.”
“Aluguel… Tá de sacanagem mesmo, né?”
O Orc entra novamente em seu veículo, fechando a porta logo em seguida em uma batida forte. Com a partida dada, isto era sinal para Estevan parar de perder tempo em sua indignação e surpresa e entrar no carro, ou ficar ali no meio do nada sob chuva ácida e alvo fácil para predadores selvagens. E é o que o Fauno faz, entrando desta vez no banco dianteiro do passageiro, batendo a porta com a mesma intensidade que Aluguel. O Orc lança um olhar de pouco apreço por isso, mas sorri em seguida sabendo pelo perrengue que o Fauno passaria. Antes de sair, o Orc gira o botão do rádio fazendo ruídos ecoarem pelo interior do carro fechado antes de finalmente capitar um sinal. A rádio local de Fonte Verde empesta o ar com Estrada da Vida de Milionário e José Rico.
Como calculado anteriormente por Aluguel, não dura mais do que cinco minutos até que finalmente avistassem o PA Sul, chegando no local debaixo de chuva grossa. Por sorte, havia onde parar o carro e não se tornar alvo direto das gotas tóxicas que caíam do céu. PA Sul era composto pelo que fora um dia um posto de gasolina comum, mantido de pé graças aos remendos improvisados de anos de manutenção, o que incluía uma pequena construção onde ficava uma loja de conveniência repleta de produtos baratos por estarem próximos, ou muito além, do vencimento. O carro para perto de uma das duas bombas existentes no local, ambas com placas indicando que estavam quebradas.
“Grana.”, Aluguel comenta, estendendo a mão espalmada na direção de Estevan.
“Tá, tá…”, Estevan leva uma mão ao bolso e tira um punhado de dinheiro que parecia ser bem mais que mil e quinhentas granas.
“Caralho, como tu é enrolão.”
“Mil e quinhentas, porra. O resto eu preciso. Depois eu dou o resto.”, Estevan termina de contar e separar as quinze notas graúdas de cem granas, entregando na mão de Aluguel. Pelo punhado, ele ainda tinha pelo menos outras duas mil granas.
“Tá certo.”, Aluguel conta por conta própria desta vez, pois sabia não poder confiar totalmente no Fauno, “Agora vai lá e enche o tanque.”
“Precisa?”
“Seria bom. Provavelmente vamos usar para chegar até essa fábrica abandonada e voltar, não é não?”
“É, é.”, Estevan suspira levando as duas mãos ao rosto e esfregando com força, como se quisesse acordar de um pesadelo.
O Fauno desce do carro aproveitando a coberta que ficava por cima das bombas para não se molhar e caminha em direção à loja de conveniência, passando pela porta que toca uma sineta ao ser aberta. O ambiente não era grande e tinha somente uma prateleira no centro enquanto outras ficavam recostadas à parede, incluindo uma geladeira onde dava para ver uma quantidade quase nula de refrigerantes engarrafados, o bom e velho Ira Cola, algumas cervejas de marcas variadas enlatadas e jarras de água para encher cantis e afins.
Por trás de um balcão à esquerda da entrada ficava sentado o velho Godofresno. Goblin enrrugado, corcunda, de cabelos brancos onde eles podiam ser vistos, usando óculos bifocais com graus que cegariam quaquer outra pessoa que os usasse. Ele parecia entretido com uma revista que lia enquanto debruçado no balcão. Estevan se aproxima e pode ver que para estar na altura do balcão, Godofresno estava sentado em uma banqueta bem alta, maior até mesmo que o próprio Goblin se ele ficasse em pé ao lado. Com um olhar rápido, Estevan percebe que é uma revista pornográfica, com fotos de mulheres nuas de raças variadas fazendo todo tipo de atos sexuais imagináveis consigo mesmas, ou com outras e vice-versa.
“Se tocar, tem que comprar. Se quebrar, eu te dou um tiro, e você tem que comprar e pagar pela bala.”, Godofresno comenta sem tirar os olhos da revista, levando os dedos magros à boca para lambusar e facilitar o passar de páginas. Ou dedilhar as partes íntimas das fotos antes disso.
“Como sempre, uma ótima ideologia para um negócio.”, Estevan comenta, sorridente, mas seu sorriso não tem efeito já que Godofresno não levanta sequer a vista para seu rosto, “Então, não estamos precisando de nada, por enquanto, só de um pouco de gasolina. Pra encher o tanque daquela carranca lá fora.”
Godofresno olha rapidamente por uma grade à sua direita em direção às bombas, vendo o Bronco 82 ali parado. Sua visão então volta na direção de Estevan, encarando-o olho-no-olho. Em seguida, o Goblin passa a vista pelo resto do corpo de Estevan, analisando. A cicatriz no pescoço rapidamente lhe chama a atenção, assim como os rasgos e retalhos aparentemente recentes nas vestes do Fauno.
“Então ele te pegou, hein?”
“Não sei do que você está falando, meu velho. É só uma carona amistosa. Entre amigos.”, Estevan retruca tentando desconversar.
“Certo, certo. Você se acha muito esperto, cabritinho. A Doceira tá pagando uma boa grana pela sua cabeça. Uma que eu poderia usar pra muita coisa.”, Godofresno puxa um .38 de baixo do balcão, apontando diretamente no rosto de Estevan.
“Que porra é essa, velhote?!”, Estevan apenas ergue os braços demonstrando rendição em meio à sua surpresa.
“É… Hehehe… Seria uma boa grana, mas não tô afim de trocar tiro com o Aluguel. Quando eu acertasse um nele, eu já estaria mais furado que peneira de farinha.”, Godofresno coloca o revólver de volta onde antes ele repousava.
“É. Quem seria idiota o suficiente pra pensar que poderia vence-lo num tiroteio, né? Hihi.”, o Fauno tenta se acalmar novamente, mas desta vez mais atento ao humor flutuante do velho Goblin.
“Quer gasolina? As bombas não funcionam.”
“Qual é, Godo. Essa desculpa só funciona com gente de fora. Libera aí, a gente tá precisando com certa urgência.”
“Urgência, é? Fonte Verde nem é tão longe daqui. A não ser…”, Godofresno olha mais uma vez na direção do carro, então voltando a encarar Estevan, “Que vocês não estejam indo para lá.”
“É óbvio que estamos indo para lá, velhote! Para de falar merda e faz esse favorzão aí pra gente. Posso te dar uma grana, já que você tá precisando. Uma mão lava a outra.”
“Não fode, moleque! Vocês não tão indo pra lá porra nenhuma! Se você tivesse mesmo sido capturado pelo Aluguel, ele não ia te deixar zanzando por aí!”, Godofresno puxa a arma mais uma vez, apontando para Estevan.
O Fauno, no entanto, estava mais preparado do que antes, e rapidamente agarra o pulso do velho, girando-o de uma forma impossível para a anatomia conhecida. O velho Goblin dá um grito de dor e deixa a arma cair por cima do balcão. Estevan sorri, levando uma mão para apanhar a arma, mas é acertado com um soco no nariz que o faz cambalear para trás e se escorar na estante de produtos que ficava no meio do pequeno salão. Godofresno era velho, mas não estava morto. O velho Goblin apanha novamente sua arma e aponta na direção do Fauno, com um enorme sorriso de dentes afiados, pretos e podres.
“Bom truque, moleque, mas eu já servi no exército!”, Godofresno grita subindo no balcão, girando a arma no dedo como um atirador profissional e guardando-a na cintura da bermuda florida e suja que usava.
“Que bom saber disso hoje, depois de tanto tempo frequentando essa merda de loja.”, Estevan fala em um tom anasalado enquanto tenta estancar o leve sangramento de seu nariz. Pelo menos não estava quebrado.
“Quer gasolina? Então você vai me fazer dois favores. O primeiro é o de sempre. Vamos para o quarto e você vai fazer comigo tudo que essas mulheres estão fazendo nessa revista até eu dar uma bela de uma gozada. Segundo, pela sua afronta em tentar tomar a porra da minha arma, você vai levar a minha sobrinha com vocês quando derem o fora daqui!”
“Uou, uou, uou! Que porra é essa de sobrinha?”, Estevan estava mais indignado com o segundo pedido do que com o primeiro, algo com o qual parecia já estar acostumado, na verdade.
“O caralho de uma prima minha teve a fazenda dela atacada numa noite e todo mundo que trabalhava lá morreu. Menos ela e essa pentelha dos infernos que era filha dela. Ela decidiu que seria mais seguro a menina vir para cá do que continuar lá, já que ela ia ter que resolver esse problema por conta própria. Você sabe.”, Godofresno imita armas com as mãos e disparos com a boca.
“E o que é que nós temos a ver com isso, porra?! Eu não sou babá. O Aluguel talvez, mas eu não tenho tempo pra ficar vigiando criança nenhuma!”
“Ela não é uma criança. Na verdade, ela é bem gostosinha pra idade dela. Hehehehe…”
“Isso foi assustador, mas prossiga.”
“Ela também sabe fazer magia.”
“Magia? Que tipo?”, Estevan se põe de pé por conta própria mais uma vez, vendo que o sangramento em seu nariz havia parado.
“Não sei. Ela vive mexendo com aparelhos eletrônicos velhos. Acho que tem alguma coisa a ver.”
“Tecnomante, hein? Tá, eu ainda não entendi porque nós temos que levar ela daqui. E porque porras você jogaria ela nas mãos de estranhos?”
“Vocês não são estranhos, porra. Te comi várias vezes. E o Aluguel tá sempre por aqui. Ele pode matar gente para um caralho, mas ele é gente boa. Dá para sentir isso quando você conversa com ele.”
“Certo… E o motivo?”
“Eu não consigo me concentrar! Depois que essa amaldiçoada chegou aqui, eu não consigo fazer nada! Toda hora eu preciso ficar espiando o que ela tá fazendo dentro do quarto! E o pior é que ela nunca tá fazendo nada de interessante! Só mexendo em porra de rádios, televisores, comunicadores, essas merdas! Ela nunca fica pelada, porra! Eu não preciso desse tipo de estresse no meu dia-a-dia! Vocês tem que levar essa porra daqui!”
“Caralho, Godo. Caralho.”, Estevan não tinha exatamente palavras para retrucar, mas recobrou a noção ao ouvir duas rápidas buzinadas do carro, “Tá, tá. Vamos acabar logo com isso.”
“Coloca a plaquinha de fechado! Hihihi!”, Godofresno diz enquanto salta de cima do balcão, correndo pelo salão em direção a uma porta que dava acesso aos fundos da loja de conveniência.
Negativando com a cabeça, Estevan caminha até a porta, vira a plaquinha de ‘Aberto’ para ‘Fechado’, tranca-a e segue o mesmo caminho feito pelo velho Goblin.
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